Bolsonaro domesticado

 

30/07/2020 

O deputado Ulysses Guimarães, uma das principais lideranças do PMDB do passado, costumava dizer: “A política é como a nuvem no céu. Você olha e ela está de um jeito. Passa alguns minutos você olha de novo e está de outro jeito”.

Pois é. Esse ano de 2020, que ficará para a História como o ano de uma piores pandemias que o mundo já experimentou, está sendo pródigo também em termos de política brasileira, mais especificamente, a braziliense.

Até o nosso amigo mané (feliz da vida pois já pode dar umas escapadas ligeiras aos pubs das esquinas) já percebeu que o nosso presidente está bem mudado.

Quem não se lembra do grande Jair dos grandes arroubos verbais que levava ao êxtase o seu séquito mais sectário? Sem protocolo, sem compostura, sem diplomacia, Bolsonaro extravasou toda a sua ira represada por anos a fio, em vista da condição de ser tão somente um deputado pouco expressivo do chamado baixo clero. Uma fera ferida.

A exemplo de políticos como Collor de Mello (que se elegeu presidente em 1989, nas primeiras Diretas Já após o ciclo militar) e Enéas (que chegou em terceiro lugar nas eleições gerais de 1998), Jair encarnou aquele candidato que é mais do contra do que a favor de algo ou alguma coisa. Foi o antipolítico, o antissistema, o antitudo. Em certa medida Jânio Quadros encarnou o mesmo figurino. Ou seja, é um fenômeno político que não é novidade nenhum e que, de tempos em tempos, ocorrem nos mais variados tempos e espaços.

Certamente este tipo de retórica e postura beligerante tem as suas limitações na chamada “realpolitik”. Quando estava no auge de seus enfrentamentos contra a imprensa, governadores e prefeitos, Congresso e Supremo Tribunal Federal, eis que o ministério público do Rio de Janeiro, com o auxílio das Polícias Civis fluminense e paulista, conseguiu capturar Fabrício de Queiroz, o homem bomba que trabalhou no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando esse era deputado estadual na Assembleia Legislativa daquele Estado.

Daí por diante muita coisa mudou. Os enfrentamentos cessaram quase que instantaneamente e por alguns dias o presidente se recolheu.

Nesse interim um veterano político começou a frequentar o Palácio do Planalto: Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e que já foi prefeito de São Paulo.

Como os plantonistas da Corte bem sabem, Kassab transitou com grande desenvoltura em dois governos passados: o da Dilma e do Michel Temer.

Agora tem dado valiosos conselhos ao grande Jair. Como acontece com muitos que chegam com discurso inflamados ao poder, o nosso presidente está passando por uma fase de domesticação, vamos dizer assim. Passado o ímpeto inicial, começa gradativamente a ser ajustar ao sistema. A sua aproximação com o Centrão é uma prova cabal disso.

A questão é saber se o seu eleitorado “hard core” aceitará isso.