Pisando no calo do presidente

 

28/08/2020

 

Parece que a trégua do presidente Jair Bolsonaro acabou. Pelo menos com a imprensa.

No domingo passado, em frente à Catedral de Brasília, o grande Jair perdeu a compostura quando um jornalista de “O Globo” tocou em um assunto que realmente o descompensa: o caso Fabrício Queiroz.

O profissional questionou sobre a bagatela de 89 mil reais que o ex-assessor do zero-um depositou na conta corrente da primeira-dama Michele Bolsonaro. A resposta, dada à queima roupa, foi típica de Carlos Maçaranduba, aquele personagem saradão do extinto programa humorístico “Casseta & Planeta”: A vontade é encher a tua boca de porrada”.

A repercussão negativa, em cadeia nacional e redes eletrônicos, foi ampla, geral e irrestrita.

Mas isso não intimidou o presidente, que com viés de alta nas pesquisas de opinião e em relacionamento sério com o Centrão, atacou novamente os jornalistas, no dia seguinte, os chamando de “bundões”.

Mais críticas explodiram pelo país todo. A temperatura subiu tanto que José Luiz Datena, no seu conhecido e popular (alguns acham popularesco) programa televisivo “Brasil Urgente” devolveu na mesma moeda ao defender os seus colegas de classe: “Bundão é o Jair”. Zorra total.

Neste mais novo lamentável episódio desse Admirável Brasil Novo, o essencial é não perder o foco no que mais interessa: as investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre as chamadas “rachadinhas” que eram praticadas no gabinete do então deputado estadual fluminense, sob a coordenação do ex-policial militar Queiroz.

Como o mané botequeiro sabe as rachadinhas é uma prática irregular que alguns legisladores fazem na distribuição das verbas de gabinete entre os seus assessores. Diga-se de passagem, esse vício é muito disseminado pelo país afora, praticado em maior ou menor escala, em quase todas as Câmaras Municipais e Assembleias Estaduais. Provavelmente isso aconteça ainda com uma certa frequência no Congresso Nacional.

No caso em tela, o que chama a atenção é o grandioso vulto dos valores que eram movimentados nas contas correntes de membros família, levando a crer que esse crime “menor” acobertava um esquema muito maior de lavagem, com conexões diretas com a bandidagem-mor daquelas praias.

Se a imprensa continuar a insistir com esse assunto a zorra continuará.