Barbárie institucionalizada

 

26/02/2021

 

Há duas semanas esse espaço comentou as atitudes beligerantes do presidente Jair com a imprensa. O presidente mito, desde o início, nunca teve muita paciência com os jornalistas com as suas perguntas pertinentes e provocadoras. Já tinha mandado esses profissionais calarem a boca e, semanas atrás, num ambiente amigável, lotada de adoradores e bajuladores, a maior autoridade do país simplesmente mandou o quarto poder enfiar leite condensando naquele lugar. O êxtase foi geral, beirando o orgasmo.

O que pensariam dessa barbaridade os censores do regime militar que, zelosos da sua função, interditavam sistematicamente músicas, peças de teatro e filmes que atentavam contra a moral e os bons costumes? Certamente gemeriam “Horror! Horror!” como fez o imortal Marlon Brando, em “Apocalypse Now”, clássico do cinema que retratou a falência civilizatória em meio à Guerra do Vietnã.

Na semana passada, numa decisão de rara unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a prisão do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ). Bolsonarista até o final dos tempos, o nobre deputado publicou nas redes sociais diversos vídeos atacando sistematicamente a Suprema Corte do país e clamando a volta do AI-5, o temido dispositivo legal dava outorgava poderes ditadoriais ao presidente de plantão, durante o regime militar.

Vale dizer que Daniel Silveira, ex-PM, foi um entre tantos neófitos que foram eleitos no tsunami reacionário que foram as eleições gerais de 2018. Na esteira da triunfante vitória do ex-capitão uma horda de novos políticos ingressou no Congresso Nacional, sem qualquer noção ou experiência de como funciona o processo legislativo, mas com uma ideia um tanto vaga e tosca de “salvar” a pátria da chamada velha política.

Nesse fatídico episódio que culminou com a sua prisão deu-se a impressão que esse deputado tem agido sozinho sempre, sendo tão somente um franco atirador, metralhando a esmo a sua verborragia tirânica. Isso não é verdade.

Como demonstrou há tempos a deputada Joyce Hasselman, dissidente do bolsonarismo, existe uma ação bem articulada que dissemina fakes e mensagens detratoras nas redes sociais. É o já conhecido gabinete do ódio.

Em que pese o procedimento polêmico do ministro Alexandre de Moraes adotou para “enquadrar” o deputado fluminense, o fato é que o STF percebeu que essa escalada da barbárie institucionalizada já atingia níveis intoleráveis.

Vale ainda dizer que a decisão unânime da Corte pela prisão foi referendada pela Câmara dos Deputados, com um significativo placar de 364 a favor, 130 contra e 3 abstenções.