O que é bom a gente fatura

 

23/10/2020

 

Era setembro de 1994 e o Brasil já estava em pleno clima de campanha eleitoral. Vitaminado pela Plano Real, o candidato da coligação PSDB-PFL (este último antecessor do atual DEM), Fernando Henrique Cardoso, já despontava na frente.

Nesse clima de já ganhou por parte dos tucanos, o então ministro da Fazenda, Rubens Ricúpero, se preparava para conceder uma entrevista nos estúdios da TV Globo. Antes de entrar no ar, numa conversa descontraída com o jornalista Carlos Monforte, o também diplomata comentou: "Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.".

A frase foi capturada por um microfone ligado e transmitida e reproduzida por todos o país.

Foi um escândalo nacional. Mas apesar de te custado a exoneração de Ricupero, o episódio, que ficou conhecido com o “escândalo da parabólica” não alterou o resultado da eleição com a vitória do candidato tucano.

Hoje, o presidente-mito parece adotar um comportamento parecido com a do descuidado ministro, neste acontecimento de mais 15 anos atrás.

Há vários meses, quando estava em pé de guerra com quase todo mundo (Congresso, Supremo Tribunal, imprensa, dentre outros) e os seus índices de popularidade oscilavam para baixo, ele costumava dizer que ficaria olimpicamente distante das eleições municipais. Afirmava que, como presidente da República, não poderia ficar interferindo em disputas regionais.

Vale dizer, que na época, os seus aliados ainda suavam para tentar viabilizar o seu novo partido, o Aliança para o Brasil, ainda com vistas para esse ano. Como sabemos, agora, sem sucesso.

Mas a despeito disso muita água passou por debaixo da ponte e o presidente Jair, abençoado pelo auxílio-emergencial criado pelo Congresso Nacional, melhorou substancialmente a sua popularidade e começou, em consequência, a enxergar com outros olhos as eleições municipais.

Atualmente, em pelo menos duas grandes capitais, o clã bolsonarista parece ter candidaturas que podem ser chamados de suas. Ao menos por ora.

Aqui em São Paulo, quase de última hora, o deputado federal Celso Russomano entrou na disputa, com as bençãos do Palácio do Planalto. Conhecido como “cavalo paraguaio” (apelido dado para aquele candidato que começa na frente mas que no final acaba perdendo a eleição), Russomano quer quebrar este estigma e conseguir finalmente chegar lá.

No Rio de Janeiro, mais por pura falta de opção, as fichas estão depositadas no atual prefeito Marcelo Crivella. Com alta reprovação de sua administração, o prefeito evangélico ainda pontua pouco nas pesquisas eleitorais.

Pelo resto do país, há notícias de que outros candidatos a prefeito vêm também se apresentando  como aliados do presidente, a fim de abocanhar parte do eleitorado bolsonarista. O presidente tem mantendo uma prudente distância desses neófitos, assim como vem monitorando atentamente a evolução das duas primeiras candidaturas.

Como foi demonstrado no episódio do auxílio emergencial, o presidente é bem atilado para tirar proveito de uma situação que possa lhe favorecer. Aliás, diga-se por sinal, nada muito diferente do que age a grande maioria dos políticos.

Assim, se alguma dessas candidaturas, ditas bolsonaristas, triunfarem, o tapete vermelho logo será estendido em frente ao Palácio do Planalto.

Do contrário, “tchau, querido”.