Mais Brasília e Menos Brasil

 

19/02/2021

 

Como o nosso amigo mané botequeiro bem sabem o presidente mito, lá atrás, quando era candidato, prometeu mundos e fundos na sua campanha. Além de acabar com a corrupção e com a mamata, se comprometia a fazer um governo com “Mais Brasil e Menos Brasília”. Queria dizer que, sob a sua gestão, as decisões e os recursos seriam descentralizados e distribuídos para outros entes da federação, como estados e municípios. Prometia, assim também, um Estado mais ágil e dinâmico, procurando atalhos nos emaranhados da máquina burocrática nas ações governamentais para que assim se tornasse mais efetivas na ponta final, ou seja, no cidadão.

Logicamente muitos acreditaram nessas e outras histórias que formaram o repertório de um projeto que tinha ainda como mote “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”. Era música para os ouvidos do Emerildo Gaspariano.

Passado quase dois anos, as ilusões, como era previsível, se perderam pelo caminho e quase nada restou daquele discurso panfletário do bolsonarismo.

As eleições de aliados seus nos comandos no Congresso Nacional sacramentou de vez a nova aliança do presidente com o coronelismo do Centrão. Foi um namoro que começou em meados do ano passado, tornou-se relacionamento sério e teve como grande enlace as eleições de Arthur Lira (Progessistas-AL) para presidir a Câmara dos Deputados e Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Assim mais uma promessa do mito foi quebrada. Com a conhecida voracidade insaciável do Centrão por cargos e recursos é impossível mudar a dinâmica das ações administrativas. Continuamos com Mais Brasília e Menos Brasil.

Aliás, um dos primeiros resultados concretos dessa nova aliança foi a aprovação, de uma maneira surpreendentemente rápida, da autonomia do BC (Banco Central). É uma daquelas medidas que no papel, no aspecto técnico, funciona perfeitamente bem, mas que na realidade pode ter um efeito completamente diverso do esperado. Como diria o saudoso jornalista Joelmir Beting: “No Brasil, a teoria, na prática, é sempre outra”.

Os defensores da autonomia dessa autarquia, dizem que isso a deixa livre das ingerências políticas do governante de plantão. Mas por outro lado pode ficar mais suscetível aos interesses do poderoso sistema financeiro. Basta dizer que muitos técnicos que chegam ao BC são oriundos de grandes bancos ou de operadores do mercado financeiro.

Basta ver o que aconteceu com as chamadas agências reguladoras, que se tornaram simples anexo das corporações empresariais.

Fragmentação do Centro

As eleições na Câmara dos Deputados e no Senado também provocaram fortes abalos nos chamados partidos de centro. O DEM, com a sua eterna vocação pós status quo, rifou Rodrigo Maia. O MDB, que mais parece um enorme Titanic sem comando, só não afunda por conta de sua dimensão nacional. O PSDB, eternamente murista, continua num processo de autoflagelação fratricida.

Certa vez, nesse espaço, se comentou a importância de se haver um centro político forte e atuante para haver uma certa oxigenação do ambiente político.

A existência de um centro autêntico (não confundir, lógico, com o famigerado Centrão) evita que a polarização política chegue a níveis intoleráveis, como aconteceu em 2018.

As esquerdas, que pensam que podem se beneficiar com essa implosão centrista, devem refletir muito a respeito.