O Mal-estar da Democacia

 

15/01/2021

 

Há cerca de quatro anos, quando Donald Trump triunfou nas eleições presidenciais de 2016, esse espaço escreveu: “Da mesma maneira que os americanos jecas elegeram Donald Trump, os belgas chucros podem eleger Jair Bolsonaro presidente do Brasil em 2018”.

O resto é história conhecida, devidamente registrada nos anais do boteco do nosso amigo mané.

Para os mais esclarecidos era previsível o quão desastrosa seria a administração do republicano então recém-eleito. Tanto é que nas eleições do ano passado o democrata Joe Biden, que está longe do carisma de líderes como Barack Obama ou Bill Clinton, ganhou com uma margem considerável o seu rival que tentava a reeleição. Mais do que isso, os democratas conseguiram maioria na Câmara dos Deputados e no Senado.

Mas apesar do conhecido nível de tosquidão do topetudo quase todos no mundo ficaram chocados com o ato terrorista promovido por um bando de trumpistas que invadiram o Capitólio, a sede do Poder Legislativo em Washington, na semana passada.

Nunca antes na história da maior democracia do mundo houve uma tentativa tão sórdida e virulenta de ataque às instituições e ao império da lei. E tudo isso incentivado pela maior autoridade do país e que por isso teria que ter a responsabilidade de preservar os preceitos constitucionais do Estado Democrático de Direito.

Há quase cem anos o fundador da psicanálise Sigmund Freud escreveu o clássico “O mal-estar da Civilização”. Segundo Freud, os indivíduos, para viverem em sociedade, teriam que reprimir os seus instintos mais egoístas e violentos. Isso seria a causa de um mal-estar coletivo que perpassaria por toda a civilização.

Assim, de alguma maneira, teriam que existir certas válvulas de escapes para diminuir a pressão latente e manter o tênue equilíbrio entre a cultura e a barbárie.

Com a democracia acontece algo similar. Em nome do bem coletivo certas obrigações são impostas a todos os cidadãos com a expectativa de que lá adiante toda a sociedade seja recompensada como um todo. Mas para certas pessoas menos altruístas o resultado final nem sempre é compensatório à renúncia de seus desejos individuais e imediatistas. Para esses indivíduos, que tem uma visão utilitarista da democracia, a relação custo-benefício lhe é desfavorável.

Esse mal-estar da democracia já foi abordado em obras recentes como “O povo contra a democracia” e “Como as democracias morrem”.

Aqui no Brasil, vários articulistas da imprensa amiga fazem alertas do que pode ocorrer nesses dois anos que restam do governo Bolsonaro. Feito madalenas arrependidas (sim, esses mesmos articulistas que hoje se indignam com as barbaridades presidenciais, em 2018 aderiram à onda antipetista que varreu o país). Dizem esses mesmos senhores que teremos que aguentar até 2022 para possamos fazer as devidas mudanças.

Mas a democracia brasileira não pode aguentar até lá.