Outros tempos

 

09/04/2021

Era para ser um golpe de mestre mas o tiro acabou saindo pela culatra.

Quando o país inteiro esperava a substituição do ministro das relações exteriores eis que o presidente, sem qualquer aviso prévio, resolveu fazer uma mini-reforma ministerial.

A saída de um dos auxiliares mais afinados com a doutrina bolsonarista já era bola cantada por todos. O que surpreendeu mesmo foi a troca do ministro da Defesa que, de tão discreto, quase não aparecia nos noticiários da Capital Federal. O general Fernando Azevedo e Silva estava à frente desse ministério desde o início do governo e sempre manteve as coisas no devido lugar numa área que é crítica em qualquer governo.

Disciplinado até o último fio de cabelo, como todo o bom militar deve ser, o dito general, além de tudo, preservava uma fidelidade exemplar ao comandante supremo das forças armadas, ou seja, o presidente da República.

E a exemplo de outros casos já bem conhecidos desses novos tempos, o ministro da Defesa caiu mais por essas suas virtudes do que por seus supostos defeitos (se é que houvesse algum significativo nesse item).

O presidente mito queria (e parece que ainda quer) um ministro muito mais alinhado a ele do que às próprias forças armadas. Na sua visão monocrática das coisas, o presidente não estava inteiramente satisfeito com ele. Mais do que fidelidade o chefe anseia por alinhamento incondicional às suas diretrizes.

Assim foi convocado o general Walter Braga Netto, que estava na Casa Civil, para Azevedo e Silva.

No dia 29 de março último, a dois dias da aniversário da “Revolução Gloriosa”, a escala Richter em Brasília chegou certamente perto dos 9 graus.

Mesmo atônicos e surpresos, os três chefes das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) resolveram colocar os seus cargos à disposição em solidariedade ao ministro demissionário. Mas para ficar em cima da carne seca, o presidente se antecipou e demitiu os três.

Tudo caminhava para uma crise militar de proporções inauditas, mas foi a própria cúpula das três Forças que colocaram panos quentes na situação, ao reafirmarem o seu compromisso de obediência à Constituição.

Chegou o dia 31 de março e tudo correu normal no quartel de Abrantes. A nação respirou aliviada.

O ex-capitão do Exército, que foi punido no passado justamente por indisciplina militar, parece que não acompanhou a evolução da história e não percebeu as mudanças significativas que ocorreram nas instituições pós-Guerra Fria.

Fez uma aposta que não deu certo.

Mais Brasília, menos Brasil

Nesta mesma reforma Bolsonaro colocou na secretaria de Governo a deputada Flávia Arruda (PL-DF), uma ilustre desconhecida. Essa secretaria, formalmente, tem a função de realizar a articulação política do governo. Mas na prática atende às “demandas” dos deputados da base governista, naquele conhecido esquema do toma lá, dá cá.

Como costuma-se dizer na Corte: “O Centrão adora um governo em crise”.