O homem atômico

 

03/07/2020

 

Meses atrás o presidente Jair foi entrevistado pelo radialista José Luiz Datena, do grupo Bandeirantes de Comunicação.

A certa altura Datena perguntou a tiro roupa: “Presidente, o senhor está pensando em dar um golpe de estado?”. E com uma desenvoltura desconcertante o grande Jair respondeu sem pestanejar: “Datena, quem está pensando em fazer isso nunca irá admitir publicamente”.

Na época o país estava no auge das tensões políticas. Enquanto os números de casos de covid-19 aumentavam em escala geométrica, os seus seguidores, em todos os finais de semana, saiam às ruas despreocupadamente gritando palavras de ordem contra o Congresso Nacional e, principalmente, contra o Supremo Tribunal Federal. Nessa narrativa incluía-se também apelo aos quartéis para que interviessem na ordem institucional do país.

E não raramente o próprio presidente marcava presença nessas aglomerações, sem máscara e apertando as mãos e até abraçando os seguidores mais radicais.

Mas eis que veio a detenção de Fabrício Queiroz pela Polícia Civil de São Paulo em uma operação conjunta com a Polícia do Rio, sob a coordenação do Ministério Público também daquele estado.

O number one do clã, que a aquela altura já ensaiava uma mudança de discurso (tinha realizado até uma reunião ministerial bem comportadinha, com transmissão em tempo real pela internet), mudou da água para o vivo.

Toda aquela agressividade que vociferava contra tudo e contra todos deu lugar a um discurso muito mais ameno e conciliador. Neste interim tinha até enviado três de seus auxiliares diretos para conversar, em “missão de paz”, com o ministro Alexandre de Moraes, o seu algoz do STF.

Isso sem falar de sua capitulação à política tradicional, abrindo as portas de seus ministérios para as raposas do Centrão.

De fato, a prisão preventiva do ex-faz tudo do então deputado estadual Flávio Bolsonaro foi um divisor de águas do atual governo. Com um manancial de informações e confidências de alguém que usufruiu anos a fio da amizade do clã, Fabrício Queiroz é mais que um homem bomba, é um cidadão com um potencial de destruição de uma ogiva nuclear.

Muita gente acredita que a detonação desse explosivo artefato seria a prisão de sua mulher, Márcia Oliveira, ainda foragida.