Segundo turno antecipado

 

07/01/2022

 

O mundo político tem uma dinâmica bem diversa da do cidadão comum, que precisa todos os dias sair de casa para ganhar a vida. O embate de opostos e a articulação de interesses diversos são os motores da contínua lutar pelo poder pelos homens públicos.

É assim aqui no Brasil e é assim em qualquer lugar do mundo.

Quando um certo governo, por diversos motivos, torna-se extremamente impopular, ocorre um fenômeno político conhecido como “campanha antecipada”. Por conta de um governante que perde grande parte de sua governabilidade bem antes mesmo do final do seu mandato, os outros atores políticos se adiantam e começam as conversações e conchavos com vista ao novo status quo se que formará após as eleições que substituirá esse mandatário.

No Brasil isso aconteceu mais notadamente no final década de 1980, com o governo de Sarney e, mais recentemente, com o governo de Michel Temer. Coincidência ou não, esses dois presidentes eram do PMDB.

Ingressamos 2022 numa situação bastante similar a esses dois exemplos históricos. Por conta do desgaste do governo Bolsonaro, as articulações políticas já começaram muito antes. Ainda a quase 9 meses da realização do 1º turno há pelo menos nove pré-candidaturas já em ritmo de campanha.

Mas as eleições desse ano parecem contar com um diferencial dramático (e até paradoxal) com relação aos dois casos anteriores: apesar do atual mandatário estar extremamente, ele ainda é um candidato bem competitivo, a ponto de estar em segundo lugar nas pesquisas.

Como disseram os sociólogos Mauro Paulino e Alessandro Janoni, ambos diretores do Instituto Datafolha, eleições no Brasil não é para amadores.

Jair Messias Bolsonaro é um fenômeno político e social a ser estudado. Fruto da falência momentânea do sistema político-partidário Bolsonaro se sagrou presidente em 2018. No poder, com uma retórica desagregadora e atitudes mais do que estapafúrdias, o presidente mito conseguiu juntar em seu entorno um séquito de seguidores que o veneram incondicionalmente.

Dirão que o petista Lula da Silva tem o mesmo tipo de seguidores. Pode ser verdade até certo ponto, já que, por ser essencialmente um animal político, Lula ainda consegue agregar outros nichos do eleitorado, ainda que momentaneamente.

Diferentemente, para o capitão a retórica é o embate, o confronto total com o oposto. Até a sua aniquilação total, ainda que não da maneira física, mas simbólica.

Pelo que se pode perceber, parece muita coisa já está acontecendo de maneira antecipada no país. Inclusive o 2º turno.