O pobre dentro do Orçamento (ou acima do Teto de Gastos)

 

02/12/2022

 

Durante a campanha eleitoral o então candidato Lula da Silva falava para quem quisesse ouvir: “Temos de colocar novamente o pobre no Orçamento”.

Segundo ele, no atual governo (e até mesmo no anterior, do “golpista” Temer) o pobre tinha sido alijado das prioridades do Estado brasileiro. Com exceção, lógico, em casos excepcionais, como no auge da pandemia, quando foi criado (pelo Congresso Nacional) o Auxílio Emergencial, e já na mencionada eleição, quando o mesmo Congresso, para salvar o governo do Messias, urdiu uma PEC que transgrediu todos os regramentos elementares de disciplina fiscal e lisura eleitoral para vitaminar o “Auxílio-Brasil”, que se inspirou justamente no Auxílio anterior.

Lula ganhou a peleja e o incumbente derrotado resolveu submergir. Como a ribalta do poder não pode ficar vazia, as atenções de todos se voltaram ao governo de transição que, por conta do inusitado apagão político de final de mandato, começou a trabalhar antes da hora.

E começou justamente para dar conta da principal promessa de campanha que é priorizar o socorro à base da pirâmide social brasileira, que foi tão judiada nos áridos tempos da crise sanitária global, sem precedentes na história recente.

Cabe lembrar que os dois principais candidatos, Jair Messias e Lula, ainda no auge da eleição mais disputada dos últimos tempos, se comprometeram a permanecer em R$ 600,00 o tão falado Auxílio-Brasil. Todavia parece que o posto Ipiranga não captou a mensagem e montou uma peça orçamentária para o ano de 2023 com o valor antigo de R$ 400,00.

Talvez em alguma outra democracia mais avançada, tal “esquecimento” teria sido fatal logo de cara para o candidato governista que por ser justamente o dono da caneta tem que fazer mais do que prometer. Mas num país atípico, em circunstâncias tão anômalas, tal discrepância retórica poderia (e foi) perdoada. A não ser que a mencionada falha tivesse partido do outro candidato. Afinal, como diz aquela mantra do leviatã mercado: “Lula não pode falhar”.

E falando dele mesmo, o presidente eleito terá que correr atrás do prejuízo (deixado pelo outro) para que o Estado continue a pagar o mínimo necessário a uma legião de desassistidos que, ao longo da história desse país, só entrou na equação política, como foi dito anteriormente, em momentos muito fora da curva.

Haddad na Fazenda

Mesmo Lula não falando nada, muitos na capital do poder apostam que Fernando Haddad, ex-ministro da Educação, ex-prefeito de São Paulo e ex-presidenciável, será o próximo ministro da Fazenda (pasta que ressurgirá com o desmonte já anunciado no super-ministério do posto Paulo Guedes). Recriada também será o ministério do Planejamento, que está sendo oferecida para Pérsio Arida. Ou para um outro expert mais ao gosto da Faria Lima, a “Wall Street” tupiniquim).

Há quase trinta anos, num país ainda atormentado pela hiperinflação, o então presidente Itamar Franco colocou um “não técnico” no Ministério da Fazenda: o senador Fernando Henrique Cardoso. Todo mundo sabe o que aconteceu: FHC criou o Plano Real e se elegeu presidente.

Hoje os tempos são outros e as circunstâncias mais ainda. Mas os dois receituários se parecem muito.