Demissão sumária

 

24/01/2020

 

Não que o episódio tenha sido extremamente grave e que a solução tinha que ter sido mesmo aquela que foi aplicada, o fato é que o impressionante (com dois “s”) vídeo do agora ex-secretário da Cultura Roberto Alvim deixou o nosso amigo mané, rei dos pubs tupiniquins, com a impressão de ter algo meio estranho nisso tudo.

Como todos os amigos do nosso amigo mané já sabem Alvim caiu porque copiou quase “ipsis literis” um antigo discurso de Joseph Goebbels, o diabólico chefe de propaganda do regime nazista.

Contrariando o seu tradicional modus operandi, o grande Jair agiu rápido no caso em tela, exonerando o mesmo por conta de uma atitude fora de qualquer parâmetro que se possa imaginar. Aliás, num espaço de pouco mais de três ou quatro horas, a crise repercutiu amplamente em todos os setores. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, David Alcolumbre, do Senado, e Dias Toffoli, presidente do Supremo, condenaram o ato imediatamente. Da direita à esquerda o repúdio também foi unânime. Até a embaixada da Alemanha se manifestou demonstrando um grande desconforto. A gota d’água veio com a condenação expressa, naturalmente, da comunidade judaica.

Enfim tudo isso aconteceu muito rápido para os padrões usuais da nova era. Tão rápido que todos os grandes jornais, na edição de sexta-feira passada, já estampavam na capa a demissão do ministro, que postou o famigerado vídeo na tarde da noite da quinta-feira anterior.

Coincidência ou não, esse desenlace aconteceu numa semana não muito boa para o mor Jair. Na quarta-feira, o jornal Folha de São Paulo revelou que o chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República), Fabio Wajngarten, é sócio majoritário de uma empresa que realiza negócios publicitários com emissoras de TV e agências de publicidade. Ligações um tanto estranhas e que podem afrontar os princípios da moralidade e da impessoalidade da administração pública. Mas o Jair já disse que se houve algo ilegal, ele resolve “lá na frente”.

Isso sem falar na crise do INSS, que simplesmente não consegue atender os mais um milhão de pedidos de brasileiros que querem se aposentar ou precisam receber algum benefício assegurado pela lei em casos de doença e acidente do trabalho.

O atendimento ao público da Previdência Social funcionava como um relógio no tempo dos governos petistas. Mas aí veio o governo pós-impeachment e um dos primeiros atos do presidente Michel Temer foi extinguir o ministério da Previdência Social e passar todas as atribuições da pasta para o Ministério da Economia.

Aí veio a famigerada reforma da Previdência que fez aumentar drasticamente os pedidos de aposentadoria. Com uma estrutura reduzida e com um quadro funcional cada vez menor (meses atrás o Ministério Público alertou para a necessidade de realização de concurso público), a situação explodiu como uma bomba-relógio.

Agora o presidente quer que os militares ajudem no atendimento dos pedidos atrasados.